dezanove de abril de dois mil e onze: 11h20


Há a cor do nevoeiro pela casa
    Um nevoeiro sem descrição      uma mágoa que percorre as janelas e as infiltra de aperto
                 Nada ter para chorar como único verdadeiro motivo para chorar       despejar o reservatório                 e começar de novo
Viver é começar de novo     sim      mas também é morrer de novo

dezoito de abril de dois mil e onze: 19h32

A paz de dois gatos estendidos diante de mim       corpos pousados e olhos fechados      como uma sentença de pequenez
Viver é ser dois gatos que dormem        minuto a minuto         na certeza de cada minuto              no instante de cada instante
Viver é ser dois gatos que sabem que o que há é        nada mais do que isso        aquilo que agora há           e que assim se são    
e que assim se dão

dezasseis de abril de dois mil e onze: 18h54


No comboio                   um casal jovem e um bebé no colo
Nota-se-lhe      como sempre se nota         nas vestes           nos gestos            nos olhos que abrem para dentro        a pobreza      ou quase pobreza
e no entanto a luz           a luz que interessa             cobre-os como um farol de vida
São educados    calmos        um exemplo para a criança que têm nos braços       e para o país que não os merece
Portugal não merece pessoas assim           a quem a vida craveja com dificuldades       precisões      mágoas de querer e não poder
Portugal não merece que pessoas assim sejam assim            educadas e calmas perante aquilo que lhes é colocado no colo         pessoas que preferem celebrar um bebé amado no colo      pessoas que são pessoas como o país não é      para si     pessoa
Portugal não merece o que mundo não merece          o que ninguém      senão as pessoas        merece
O mundo merecia pessoas como o mundo      com revolta em vez de carinho             com destruição em vez de coração        pessoas que se fizessem ouvir     gritar          rasgar   fazer        fender         e até bater
O mundo merecia um mundo de pessoas como o mundo
O mundo merecia tudo          excepto ser ele             e nada mais           o mundo

catorze de abril de dois mil e onze: 16h12


      Frio com sol       e uma noite de demónio que fica para trás
  Terror de alma        palavras a mais quando          por vezes       é do silêncio que se faz a verdade
       Passar pelo sono como se passasse pelo mais fundo de mim         encontrar a solução no vazio          no absolutamente nada de um sonho que abre a porta para o que tem de ser
              A visão do que tem de ser feito        límpida como nunca
   A visão do que tenho          em mim          e de mim       de ser feito
                          Antes que me fique desfeito

treze de abril de dois mil e onze: 17h06


  A solidão é uma benção quando à volta tudo parece fazer doer
No quarto       o regresso às palavras a sós         casa de mim
       No estômago     um aperto estranho       como uma faca que        a cada pensamento       a cada recordação         parece mover-se por sobre a ferida
                     Sou                em paz          um homem em paz          mas nunca um homem sem guerra interior
   A saudade não passa         e não sei mesmo se quero que passe        ou se quero alimentá-la de doses de drogas leves          pequenos enganos para o engano maior
              A felicidade é um engano             e não há razão maior para querer             sempre                 ser enganado

treze de abril de dois mil e onze: 10h35


No centro do asfalto que torra                dois homens de farda preenchem               pá e paciência                  alguns pequenos buracos
Um deles fá-lo com o cuidado e o sorriso que Picasso gostaria de ter tido ao criar cada uma das suas obras
Amar cada instante como se fosse arte                               eis a felicidade

doze de abril de dois mil e onze: 22h31


É em lágrimas                  e não em centímetros                   que se mede o tamanho das pessoas